10 motivos para britânicos "torcerem o nariz" para Olimpíada




Jogos não tem gerado tanta empolgação por parte dos britânicos. Foto: AP

Na visão de seus organizadores, os Jogos Olímpicos deste ano deveriam estar gerando uma grande onda de entusiasmo entre todos os britânicos, sem exceções. Mas não é o caso. Há muita gente temendo - e muito - o evento.

Tem sido difícil escapar da crescente publicidade positiva sobre a Olimpíada, com comentários de personagens que vão de políticos a saltadores com vara sobre o sensacional espetáculo que acontecerá neste verão londrino, unindo a nação em um entusiasmo febril e em orgulho esportivo.

Mas há muita gente que não está convencida.

Há criticas de moradores de Londres, temerosos de que os Jogos causarão caos, atrapalharão os negócios e tornarão a vida mais difícil para muita gente.

E há críticos a centenas de quilômetros de Londres, mas que não conseguem saber por que estão pagando pelos Jogos. Então, qual as razões por trás da falta de entusiasmo da população britânica?

1. As faixas "Zil"
Os organizadores da Olimpíada de Londres estão criando quase 50 quilômetros de vias exclusivas para o uso da "família olímpica". As vias estão entre as principais rotas que cortam Londres e que têm duas ou mais pistas. Elas serão usadas por 4.000 BMWs e 1.500 ônibus levando VIPs, atletas, patrocinadores e a mídia.

Elas criaram oposição e temor sobre congestionamentos e sobre o tratamento preferencial aos dignitários olímpicos e patrocinadores em detrimento dos londrinos comuns. Aqueles que utilizarem as faixas especiais sem autorização receberão multas altas.

Os críticos as apelidaram de faixas "Zil", numa referência ao tratamento especial dado às limusines Zil de altos funcionários do governo na antiga União Soviética. Em muitos casos a faixa especial será a atual faixa de ônibus, e em metade desses casos, os ônibus comuns serão empurrados para disputar espaço nas outras faixas com o tráfego em geral.

As ambulâncias sem suas luzes de emergência ligadas não poderão usar as faixas especiais, uma decisão que poderá levar pacientes vulneráveis não considerados em condição de emergência a ter que enfrentar o trânsito em seus deslocamentos, segundo serviços privados de ambulância.

A agência que administra o sistema de transportes de Londres admite que a criação das faixas especiais poderão criar gargalos em alguns pontos, mas diz que os problemas maiores poderão ser evitados se os motoristas planejarem com antecedência seus deslocamentos para evitar os horários de pico.

2. Custo
Para alguns, os Jogos são um enorme desperdício de dinheiro público. Originalmente estimado em 2,4 bilhões de libras (cerca de R$ 7 bilhões), o orçamento dos Jogos havia inflado para 9,3 bilhões de libras (cerca de R$ 27 bilhões). Agora que o custo total parece estar próximo a 9,2 bilhões de libras (cerca de R$ 26,7 bilhões), os organizadores afirmam que os Jogos cumpriram "os prazos e o orçamento".

"É um desperdício colossal de dinheiro", diz Sam Leith, colunista do jornal London Evening Standard. "Imagine um pedreiro chegando à sua casa, fazendo um orçamento de 300 libras, revisando depois para 1.500 e dizendo que cumpriu o orçamento. Você ficaria horrorizado", diz Leith.

O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte rebate, porém: "O orçamento para os Jogos foi finalizado e estabelecido em 2007 em 9,3 bilhões de libras. Fomos completamente transparentes sobre o custo final antecipado, fazendo atualizações financeiras regulares, trimestrais. Os benefícios de abrigar os Jogos são grandes em termos sociais, econômicos e esportivos, e serão um incentivo ao país".

Mas os benefícios econômicos de organizar a Olimpíada ainda são questionados. Algumas cidades, como Montreal (sede dos Jogos em 1976), sofreram financeiramente. E há ainda teorias de que as Olimpíadas de 2004 em Atenas contribuíram para a catástrofe econômica da Grécia.

O quadro não está claro em Londres. A Câmara de Comércio Britânica previu que a Olimpíada poderá emperrar o crescimento no curto prazo, com a produtividade reduzida. E o compositor de musicais Andrew Lloyd Webber disse esperar uma queda acentuada no número de espectadores nos teatros londrinos.

3. E o resto do país?
Como a última grande área livre da capital, o terreno usado para o parque Olímpico teria sido renovado de qualquer maneira pelo setor privado, afirma o arquiteto Edwin Heathcote, colunista do Financial Times. Com a cidade de Londres crescendo e escassa em terrenos disponíveis, parece estranho que uma grande soma de dinheiro seja destinada para isso, argumenta. Muito melhor seria investir dinheiro revitalizando cidades empobrecidas do norte do país, acredita Heathcote.

Michael Parkinson, diretor do Instituto Europeu de Assuntos Urbanos, diz apoiar os Jogos de Londres, mas lamenta o foco concentrado em Londres e no sudeste do país. "Veja os grandes projetos de infraestrutura na Grã-Bretanha - trens de alta velocidade, Crossrail (linha de trens que cruzará a capital num X) e a Olimpíada. São todas coisas muito boas, mas todas constituem um investimento considerável em Londres e no sudeste", afirma.

Mas os organizadores dos Jogos dizem estar "determinados" a garantir que o evento beneficie todo o país.

"Mais de 1.500 empresas em toda a Grã-Bretanha já receberam 6 bilhões de libras (cerca de R$ 17,4 bilhões) em contratos durante a fase de construção, com oportunidades de negócios adicionais criadas ao nos prepararmos para os eventos em si", afirma o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte.

"Nossa campanha para turismo internacional e doméstico deve gerar ainda 3 bilhões de libras (R$ 8,7 bilhões) em comércio e investimentos e gastos adicionais de turistas, além de criar mais de 50 mil empregos. A Tocha Olímpica passará por todos os cantos do país e visitará mais de mil comunidades em mais de 70 dias. Cidades e vilas pelo país também se beneficiarão, conforme atletas de todo o mundo se preparem para os Jogos em centros de treinamento", disse.

4. Caos no transporte público
Em Londres haverá um caos no transporte público mesmo para os que evitem por completo as ruas da cidade. O metrô ficará ainda mais cheio e com grandes atrasos ou poderá ficar desagradável com o calor do verão. Os principais gargalos devem ser nas estações de baldeação nas linhas Central, Jubilee, District e Hammersmith and City, que levam às duas estações próximas ao Parque Olímpico - Stratford e West Ham.

A estação de King's Cross é outro problema potencial, já que os trens que servem a estação internacional de Stratford na direção do continente europeu sairão de lá.

No início do ano, o diretor-executivo da Network Rail (empresa concessionária da rede ferroviária britânica), David Higgins, advertiu que "coisas ruins acontecerão" ao sistema de transporte de Londres durante a Olimpíada. O principal, segundo ele, é não entrar em pânico.

A Transport of London, responsável pelos transportes na capital, também admite que "em certos momentos e em certos locais" a rede de transportes da cidade ficará congestionada. "As pessoas que pretendem viajar a Londres no verão devem visitar o site getaheadofthegames.com para ver quais passos podem tomar para evitar os gargalos do transporte e conseguir se movimentar".

5. Elefantes brancos
Já há muitas discussões sobre os impressionantes locais de eventos tornando-se elefantes brancos quando a Olimpíada tiver terminado. Todos os Jogos anteriores deixaram para trás um rastro de estádios e arenas esportivas caras e muitas vezes enormes, que deixam de ter uso quando os Jogos acabam.

Atenas é um exemplo notório, mas mesmo organizadores de mais sucesso, como Barcelona e Sydney, tiveram sua devida porção de arenas vazias e áreas com vegetação crescida. Heathcote diz que é difícil justificar a infraestrutura esportiva por alguns momentos de orgulho nacional.

O processo de repassar o Estádio Olímpico, que custou 500 milhões de libras, já fracassou uma vez, com disputas provocando o cancelamento do acordo para que o time de futebol West Ham e a administração local do distrito de Newham utilizassem o estádio após os Jogos.

Os custos de manutenção de outros locais também são uma preocupação. O Centro Aquático será uma das piscinas de manutenção mais cara no mundo, segundo Heathcote. Muitos locais de competições já têm outros usos destinados, mas o sucesso desses acordos só será conhecido daqui a alguns anos.

A Companhia para o Legado do Parque Olímpico afirma: "Não haverá elefantes brancos. Os planos para o legado dos Jogos estão mais avançados do que em qualquer outra cidade-sede. Seis dos oito locais de construção permanente já têm seu futuro garantido, e os demais devem ser definidos neste verão".

"Eles deverão deixar um grande legado para os atletas, os visitantes e a população local. Já temos anunciado que o custo da entrada para usar a piscina ou a quadra no Centro Aquático ou na Arena Multi-Uso estará no mesmo nível que outros locais na região, e 75% dos empregos nesses locais irão para a população local", diz.

6. Cobertura onipresente
Será difícil escapar da cobertura onipresente da mídia sobre o evento. As "viúvas" da Copa do Mundo, que perdem a atenção de seus maridos para o torneio, consideram a avalanche de futebol por um mês a cada quatro anos difícil de engolir. Os Jogos Olímpicos duram menos tempo que a Copa do Mundo, mas são maiores.

"Qualquer grande evento esportivo tende a nos inundar", afirma Annie Chipchase, que fez campanha contra a Olimpíada em Londres antes de a cidade ser escolhida, com o movimento NoLondon2012. "Mas a Olimpíada é pior do que a Copa do Mundo. Há tempos que venho temendo o que vai acontecer neste ano", diz.

A BBC, como transmissora oficial dos Jogos na Grã-Bretanha, usará dois de seus canais de TV para exibir todos os esportes, de todos os locais de competições. Roger Mosey, diretor da BBC para a Olimpíada, argumenta que um balanço deverá ser mantido e que haverá "santuários para as pessoas que não quiserem enlouquecer pela Olimpíada".

Mas os críticos podem argumentar que não será somente a cobertura da mídia dos eventos, mas toda a excitação e a linguagem bombástica sobre os Jogos que serão difíceis de ignorar.

7. O esporte de base pode sofrer efeitos negativos
Os Jogos Olímpicos podem não incentivar que mais pessoas pratiquem esportes. Sediar a Olimpíada significa não somente jogar dinheiro na construção de estádios, velódromos e centros aquáticos, mas também em apoiar atletas de elite, que consomem grandes somas. Cada medalha de ouro nos Jogos de Pequim custaram à Austrália 45 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 84,5 milhões).

A campanha para Londres sediar o evento neste ano argumentava que organizar os Jogos - e ganhar várias medalhas - poderia incentivar as pessoas a praticar esportes. A Aliança pelo Esporte e pela Recreação, que tenta incentivar a participação nos esportes, está apoiando os Jogos. Mas Tim Lamb, diretor-executivo da entidade, afirma que muitos erros foram cometidos.

"O orçamento geral deveria ter contido uma provisão realista para alcançar o legado esperado da participação. Nenhuma outra Olimpíada conseguiu isso antes, e não há nenhuma razão para acreditar que poderíamos conseguir isso sem um planejamento cauteloso e sem o financiamento correto", diz.

A contagem regressiva para Londres 2012 não levou a um aumento considerável na prática de esportes. Segundo a Sport England, agência do governo para a promoção do esporte, a prática de esportes entre os jovens caiu.

"A Olimpíada é um grande espetáculo para sentar e assistir", afirma a ativista anti-Jogos Annie Chipchase. "Não consigo ver como todo mundo levantará do sofá para fazer mais exercícios. Isso não aconteceu em mais nenhum lugar", diz.

De fato, os críticos argumentam que o enorme custo de sediar os Jogos desviou recursos da construção de mais locais para a prática de esportes. Em 2009, o Partido Conservador, então na oposição, argumentou que os gastos com o esporte de base haviam caído em um quinto, conforme os recursos eram realocados para a Olimpíada. Perto do estádio olímpico, campos de futebol de várzea foram transformados em um estacionamento para ônibus.

O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte afirma: "Os Jogos colocarão o esporte no centro das atenções como nunca antes e estarão no imaginário de uma geração. Estamos garantindo que tudo esteja em seu lugar para capitalizar após os Jogos, com ofertas de primeira-classe para esporte comunitário em todo o país, que incentivarão os jovens inspirados pela Olimpíada de Londres a adotar o hábito da prática de esportes".

8. Beleza natural
O Parque Olímpico está concretando um local único de natureza urbana, um dos últimos grandes locais sem construções em Londres. Para Chipchase, havia algo maravilhoso na paisagem sobre a qual os locais de competição foram construídos. "Era uma área abandonada do leste de Londres, mas a vida selvagem havia retornado. Você podia andar por lá e de repente estava no campo, com habitats e espécies interessantes", diz.

Segundo ela, era um lugar de lazer para as famílias locais poderem fugir das multidões presentes em Londres - e que serão uma característica do que foi colocado no lugar.

A Autoridade Olimpíca responde: "Por mais de cem anos muito do que é hoje o Parque Olímpico era um local de despejo de dejetos industriais e domésticos, altamente poluído. Desde 2005, limpamos quilômetros de cursos d''água e dois milhões de toneladas de solo, além de remover construções em desuso e muitos postes de eletricidade. Londres e a Grã-Bretanha estão ganhando um novo parque sustentável com mais de 45 hectares de área verde, incluindo bosques e habitats selvagens, que dobrarão de tamanho após os Jogos, conforme o Parque Olímpico seja reordenado para o uso público de longo prazo, para as próximas gerações".

9. Controle excessivo e patrocínios
Para alguns, os organizadores são excessivamente controladores. Os críticos reclamam que somente certos alimentos e bebidas serão permitidos nos locais de competição, que itens de vestuário não aprovados por patrocinadores serão proibidos e que a segurança de mão pesada impedirá a expressão política.

A lei da Olimpíada, de 2006, protege os Jogos de Londres de empresas que tentem se associar ao evento sem permissão, algo sobre o que as companhias pequenas reclamam.

"A única água que você pode comprar é vendida pela Coca-Cola. A única comida que você pode comprar é do McDonald's. O acesso ao local é feito pelo shopping center Westfield... É uma invasão", afirma o autor Iain Sinclair, que vive em Hackney, no leste de Londres, em um artigo na revista Prospect.

O McDonald's no Parque Olímpico será o maior do mundo, mas a empresa afirma que outros pontos de venda de alimentos estarão disponíveis. Mas críticos se dizem perplexos pelo fato de que uma nação que luta para combater a obesidade tenha uma grande loja de comida fast-food no centro de seu maior evento esportivo.

Outros atacam o Comitê Olímpico Internacional - Sam Leith observa que, longe de ser "um braço da ONU", o COI é uma empresa privada que já foi acusada de corrupção no passado. Para ele, o uso do termo "Família Olímpica" dá uma ideia de algo sinistro.

Para a colunista do jornal The Times Libby Purves, há algo humilhante sobre a maneira como a Grã-Bretanha se rendeu ao COI. "Há uma sensação horrível de ser uma nação conquistada. O COI tem realmente a palavra final em tudo", diz.

O Comitê Organizador de Londres 2012 afirma: "Nós especificamos claramente nos Termos e Condições Gerais do nosso guia para ingressos o que pode e o que não pode entrar no Parque Olímpico e nos locais de competição. Adotaremos uma postura firme, mas pragmática, sobre as ações de ''marketing de guerrilha'' nos Jogos e lidaremos com as questões caso a caso".

10. Falta de uma regeneração real
A Olimpíada pode não trazer uma regeneração verdadeira da região do Parque Olímpico. O plano principal para Londres 2012 levou à reconstrução em lugar da regeneração, afirma o arquiteto Edwin Heathcote.

Para ele, o plano perdeu a chance de criar um bairro que combine habitação e trabalho. "Quando os vitorianos construíram novas partes de Londres (no século 19), havia indústrias, lojas e ateliês. Mas a infraestrutura econômica não está sendo construída hoje", diz.

Ele argumenta que os Jogos de 1948, também disputados em Londres, criaram um sentimento de "estamos todos juntos nisso", enquanto a versão 2012 tem um sentimento corporativo, simbolizado pela venda da Vila Olímpica para o Fundo Soberano do Catar.

O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte responde: "(A Olimpíada) vem atraindo um forte investimento do setor privado, como o shopping center Westfield, e o Parque Olímpico Rainha Elizabeth abrigará cinco novos bairros onde gerações trabalharão, viverão e se divertirão após Londres 2012. A velocidade dessa regeneração não teria sido possível se não fosse pelo fato de Londres sediar os Jogos".

Fonte: Terra



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