A fisiologia do Squash





    A função das vias metabólicas no músculo é principalmente fornecer energia para os exercícios em suas diversas intensidades. A energia para a prática de atividades físicas como o Squash deriva dos processos metabólicos que envolvem a degradação química dos nutrientes energéticos (carboidratos, proteínas e gorduras) para a produção de adenosinatrifosfato (ATP) (BOILEAU,1989).

Existem dois processos produtores de energia pelo sistema anaeróbio para a elaboração de ATP: O sistema ATP-CP (do fosfagênio) e a glicólise anaeróbia. Anaeróbio significa sem oxigênio e metabolismo refere-se às várias séries de reações químicas que ocorrem dentro do organismo. Assim sendo, metabolismo anaeróbio refere-se a ressíntese de ATP através de reações químicas que não exigem a presença do oxigênio que respiramos (FOX et al., 1991).

A importância do sistema fosfagênio para o Squash é exemplificada pelos poderosos e rápidos deslocamentos que são realizados em questão de segundos. Sem esse sistema, os movimentos rápidos e vigorosos não poderiam ser realizados, pois essa atividade exige muito mais um fornecimento rápido do que uma grande quantidade de energia ATP.

Quando a intensidade do exercício é muito elevada, substratos potentes como CP (creatina fosfato) e o glicogênio, são metabolizados anaeróbicamente (via da creatina fosfokinase e da glicólise anaeróbia ou glicolítica).

O sistema do fosfagênio representa a fonte disponível mais rapidamente do ATP para ser usado pelo músculo. As razões disso são que não dependem de uma longa série de reações químicas, e do transporte do oxigênio que respiramos para os músculos que estão realizando o trabalho e tanto ATP quanto CP estão armazenados diretamente dentro dos mecanismos contráteis dos músculos (MCARDLE et al, 1998).

A geração energética nos primeiros 15 segundos de trabalho muscular é denominada "fase alática da obtenção anaeróbica de energia", uma vez que não ocorre síntese considerável de ácido lático (lactato) (HECHT, 1972 citado por WEINECK, 1999).

A glicólise anaeróbia, como sistema de fosfagênio, é extremamente importante para os atletas de Squash, principalmente porque proporciona também um fornecimento relativamente rápido de ATP. Uma troca de bola de longa duração (60 a 120 segundos) depende altamente do sistema do fosfagênio e da glicólise anaeróbica para a formação de ATP.

A potência máxima do mecanismo anaeróbio - glicolítico de asseguramento energético atinge valores máximos, nunca antes de 30/45 segundos após o início do trabalho com intensidade máxima e se mantêm neste nível durante 2 a 3 minutos (VOLKOV, 1983 citado por ZAKHAROV, 1992).

A formação do lactato sanguíneo e o papel do Limiar anaeróbio

    Uma das maiores "verdades" da Fisiologia é a idéia de que tanto o lactato quanto a acidose metabólica contribuem diretamente para a fadiga muscular. "As associações entre lactato e fadiga se originaram em estudos de quase um século atrás, quando se descobriu que contrações até a exaustão levam ao acúmulo de lactato e queda no pH. Na ocasião também foi observado que a presença de oxigênio na recuperação era associada a um declínio na quantidade de lactato, aumento nos níveis de glicogênio e restabelecimento da função contrátil" (BROOKS, 2001).

    Entretanto estudos recentes revelaram que, em temperaturas normais, a queda de pH não interfere no funcionamento muscular Westerblad (2002). Pelo contrário, já estão disponíveis fortes evidências opostas ao senso comum, trazendo a hipótese que a acidose pode ser um importante mecanismo protetor contra a fadiga.

    Contrações extenuantes levam a perda de K+ intracelular, com acúmulo extracelular do mineral, de modo que a concentração plasmática de íons de potássio pode chegar a 10 mM, sendo ainda maior nas adjacências do músculo. Em um estudo de Nielsen et al (2001), esta situação foi simulada através da incubação de músculos de ratos a 11mM de K+ e obteve-se redução de 75% na força de músculos de ratos, mostrando-se que o acúmulo de K+ interfere negativamente há função muscular. A adição de 20 mM de lactato, no entanto, levou ao restabelecimento quase total da capacidade contrátil. Além disso, quando se adicionou lactato e K+ simultaneamente, a queda na força induzida pelo K+ foi totalmente prevenida.

    Embora exista controvérsia sobre os mecanismos que controlam a produção de lactato, existe o consenso na literatura que a concentração de lactato no sangue varia muito pouco em relação aos valores de repouso, quando se realizam esforços que correspondem até 50 - 70% do VO2máx. Acima desta intensidade existe um aumento exponencial da concentração de lactato no sangue no músculo (DENADAI, 1995).

    O pico de da concentração de lactato ocorre depois de 1 - 2 minutos em exercícios máximos. A concentração do lactato sanguíneo e muscular é muito similar em exercícios que levam à exaustão em aproximadamente 8 minutos (MONTGOMERY, 1990).

    Na situação de repouso, são produzidos diariamente cerca de 120g de lactato dos quais apenas 1/3 são provenientes dos tecidos de metabolismo virtualmente anaeróbio. Nestas condições a maior parte do lactato circulante é removida pelo fígado (53%). No exercício submáximo de longa duração o músculo esquelético, além de maior produtor passa a ser, também, o maior consumidor de lactato, oxidando 2/3 do lactato produzido, gerando energia para o trabalho muscular (BURINI, 1989).

    A avaliação do sistema anaeróbio alático é possível em exercícios de curta duração (menor que 15 segundos), e concentração do lactato sanguíneo acima de 6 mmol/l pode levar a uma deficiência deste sistema. Em esforços anaeróbicos láticos, altos níveis de lactato sanguíneo e baixo índices de fadiga podem indicar alta potência anaeróbia lática. (SIMÕES et al., 1998).

    Adicionalmente, a taxa de acumulação de lactato no sangue, a qual resulta da relação entre os processos de produção e de remoção do referido metabolismo, é determinada pela combinação de vários fatores, entre os quais o tipo de fibras, a capacidade respiratória muscular, a mobilização de substratos energéticos bem como as características bioquímicas das células musculares esqueléticas (SOARES, 2001).

    Segundo Sousa (2003), os valores médios de lactato sanguíneo e melhor desempenho em corridas de 150 metros observados para os rapazes, evidenciaram uma maior potência anaeróbia lática para homens em relação às mulheres. As mulheres apresentam menor massa muscular, menor atividade de enzimas glicolíticas, e por conseqüência, desempenho e produção de lactato inferiores a indivíduos do sexo masculino.

    A concentração muscular e sanguínea de lactato, é menor em indivíduos treinados, quando comparados aos sedentários, para a mesma intensidade submáxima de exercício (absoluta ou relativa). Entretanto, em esforços que ultrapassam o VO2máx, os indivíduos treinados podem apresentar uma maior concentração de lactato do que os sedentários.

    O limiar anaeróbio (Lan) representa uma intensidade de esforço a partir da qual os níveis de lactato começam a aumentar significativamente, dificultando a continuidade do exercício, e tem sido considerado como intensidade correspondente à concentração fixa de 4 mmol/l de lactato.

    Simões et al.(1998), afirma que o Limiar Anaeróbio é um parâmetro de aptidão aeróbia que vem sendo utilizado extensivamente em clínicas médicas, na prescrição de intensidades de exercícios para o treinamento e em pesquisas na área de fisiologia do exercício. Ultimamente vários protocolos tem sido utilizados para determinação do Limiar Anaeróbio. Alguns utilizam-se de variáveis ventilatórias, enquanto muitos utilizam-se de variáveis metabólicas, especialmente dosagens de lactato sanguíneo. 

    Na prática do Squash, onde o gasto calórico é elevado (517 calorias em meia hora de jogo - ACSM), o oxigênio dos músculos é insuficiente para toda a produção energética, e a via anaeróbia é ativada desde o início. Acumula-se então o ácido lático, que leva à fadiga mais ou menos precoce. Por essa razão, os esforços anaeróbios são interrompidos, exigindo intervalos de recuperação para a sua continuidade. Todavia, durante os esforços anaeróbios, o organismo sempre tenta ativar ao máximo a captação e transporte de oxigênio, por mecanismos reflexos e imediatos, para que a via aeróbia em atividade diminua a produção anaeróbia de ácido lático. Por esse mecanismo, ficamos dispnéicos e taquicárdicos após um esforço de alta intensidade (anaeróbio), mesmo quando o exercício é muito curto. "Em esforços anaeróbios mais prolongados, como nas corridas de velocidade por exemplo, a duração maior do esforço permite que os mecanismos de captação e transporte de oxigênio sejam ativados plenamente, podendo ser atingido o VO2máx do indivíduo." (SANTARÉM, 2005).

    Tendo em vista que o sistema aeróbio é importante para a recuperação entre séries de exercícios anaeróbios, sugere-se que o treinamento aeróbio anteceda o treinamento anaeróbio lático, e que se faça uma manutenção da capacidade aeróbia durante um período de treinamento do tipo anaeróbio lático (SIMÕES, et al., 1998).

    Em seu artigo, Gibson, et al. (1999), estudou o consumo máximo de oxigênio em jogadores de Squash e obteve o valor de 66,5 ml/kg/min (±6 ml/kg/min). A freqüência cardíaca dos avaliados foi de 196 batimentos por minuto (± 5 bpm).

    Um outro estudo realizado na Colômbia, Sarmiento, et al. (1997), percebeu que ocorreu um aumento na freqüência cardíaca nos primeiros 10 minutos de partida entre 94 e 100% da freqüência cardíaca máxima calculada para a idade em homens e mulheres respectivamente. Já a freqüência cardíaca média de jogo ficou em 87% da freqüência cardíaca máxima para a idade.

Lactato sanguíneo como instrumento de avaliação, prescrição e controle de treinamento

Além da importância de sua utilização como instrumento de pesquisa em fisiologia do exercício, a dosagem de lactato sanguíneo tem sido bastante eficaz no controle de algumas variáveis do treinamento. A utilização da resposta do lactato sanguíneo ao exercício tem sido considerada melhor do que a freqüência cardíaca ou até mesmo do VO2máx. Uma avaliação feita por meio de dosagem de lactato nos permite avaliar a capacidade do sistema anaeróbio alático, aeróbio e anaeróbio lático, e até mesmo prescrever treinamento específicos e individualizados e controlar os períodos de recuperação a determinados estímulos de treinamento com base no limiar anaeróbio (SIMÕES, 1998).

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